Meus Tempos de Guri
MEUS TEMPOS DE GURI
Letra: Ramão Aguilar e Sidnei dos Santos
Fui criado lá no passo,
No tempo da calça curta,
Nunca fui para consulta.
Andava de pé descalço,
Esta época eu realço,
Da cama saltava cedo,
Ainda escuro e sem medo,
Pra trabalhar não me calço.
Me boleava porta a fora,
Nos campos brancos de geada,
Pra Osquinha e a Bragada,
Trazer logo pra mangueira.
Tomar café de chaleira,
Encher o tarro de leite,
E repartir de jardineira.
Ia findando o mês de julho,
E o inverno ainda atravanca,
Com geadas de barbas brancas,
Congelando até pensamento,
Quando levantava com vento,
No sopro canto do minuano,
Desafiando o índio aragano,
Que luta pelo sustento.
Quando saia pro campo,
Em direção ao vaquedo,
Pra tudo existe um segredo,
Até pra descongelar os pés,
Sem andar de marcha ré,
No pouso quente do gado,
Os pés descalços aporreados,
Dum lutador que tem fé.
Depois daquela época,
A vida mudou muito,
Nada caminhou junto,
Mudou da noite pro dia,
Hoje as várias galerias,
E tudo se compra pronto,
Fazenda por metro, um conto,
Que o bolicheiro vendia.
Essa turma de agora,
Quando conto da risada,
Dos campos brancos de geada,
Que eu saia de pé limpo,
Falo a verdade e não minto,
Disso tenho testemunha,
Chegava nem sentir as unhas,
Hoje até saudade eu sinto.
Como tudo na vida passa,
Os percalços e as vitórias,
Algum momento de glória,
Pra quem vive no tormento,
Um guri não tem lamento,
Tem compromisso com a lida,
Trabalha pra família amiga,
De onde tira o sustento.
02/10/2009 |